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Antigamente era muito melhor

Ouço com frequência, de pacientes maduros, a queixa de que o advento da internet, das redes sociais e dos aplicativos de encontro e de "pegação" tornou a vida muito mais difícil. "Antigamente era muito melhor, conhecíamos as pessoas nas baladas, tinha o negocio do olho no olho e não havia tanta promiscuidade". Será?, penso com meus botões.

 

Tendo a achar que essa percepção, e sobretudo esse sentimento de nostalgia, refletem, em parte, uma dificuldade de adaptação à uma realidade, que é sim mais complexa, mas que é também imensamente mais rica, diversificada e, principalmente, muito mais livre. E claro, também à nossa memoria seletiva.

 

Lembro-me dos velhos tempos quando havia pouquíssimos lugares para o encontro de homens gays, quase todos meio escondidos, se não totalmente marginais. Numa cidade como São Paulo, nos anos 1980, por exemplo, havia algumas boates, que é como chamávamos as baladas de hoje, umas poucas saunas e os lugares típicos de pegação, como o Trianon, o parque Ibirapuera e a "Terra de Marlboro" (onde os homens se encontram), no centro da cidade, na região do Largo do Arouche. Quase todos "funcionavam" à noite, entrando pela madrugada adentro, longe dos olhares da cidade dos heterossexuais.

 

Costumo dizer que naquela época, para se encontrar o príncipe encantado, era preciso que todos os deuses do Olimpo estivessem disponíveis e a serviço do sujeito. Era preciso que ele, o príncipe "to be", estivesse na mesma boate, no mesmo dia, que a atração fosse mutua, que ambos tivessem desejos parecidos e que houvesse alguma compatibilidade sexual. Uma noite inteira poderia ser perdida numa paquera que acabasse não dando certo por algum motivo. Nesse caso, sobrava a esticada ao Ibirapuera ou no Trianon, caso não se quisesse ir sozinho pra casa (lembrando, não havia casas de sexo ou saunas 24 horas), o que além de incerto podia ser também perigoso. Havia, naquela época, por causa da invisibilidade reinante, um terreno fértil para chantagens de vários tipos, incluindo a da própria policia.

 

Ao contrario do que a memoria seletiva de alguns registrou, não havia ainda as drogas sintéticas, mas já  havia muito álcool, cocaína, maconha e poppers. Havia também "carão" e a troca de telefones falsos e a chamada promiscuidade, embora talvez em escala menor, em razão dos limites físicos, não era em nada diferente da que hoje parece existir. 

 

Quem me leu ate aqui, pode estar achando que estou "defendendo" o presente em detrimento do passado, o que não deixa de ser um pouco verdadeiro. Embora eu reconheça, e lide no dia a dia do consultório com os inúmeros e graves problemas que a cena gay atual apresenta, não há como não admitir os incontáveis avanços: na liberdade de escolha, sexual, afetiva e social de gays e outras minorias sexuais; nos então impensáveis direitos civis, como o casamento e a adoção de filhos; na implementação de politicas publicas de saúde e de anti-discriminacao; na visibilidade conquistada pelas paradas e representações culturais, na literatura, no cinema, nas artes em geral, nas series de tv, etc.; no grau de aceitação e respeito à diversidade sexual no mundo corporativo. E, mais especificamente, no que se refere ao tema principal dessa reflexão, na diversidade dos estabelecimentos voltados para o publico LGBT, funcionando à luz do dia, sem risco de invasão ou interdição e que oferecem todo tipo de produtos e serviços. Dos mais básicos aos mais sofisticados, como por exemplo, hotéis, restaurantes, roteiros de viagem específicos, festivais de cinema, festas, etc., e, ate mesmo, regiões bastante segmentadas, como a da Frei Caneca em São Paulo.

 

E, como não poderia deixar de ser, a internet, as redes sociais e os aplicativos desempenham um papel central nessa nova realidade. Essas tecnologias permitem, não apenas uma conexão sexual rápida e segura, para aqueles que a desejam, como também possibilitam que indivíduos solitários, com dificuldades de auto aceitação ou de aceitação familiar, com problemas de saúde, física ou emocional, ou perdidos em locais longínquos se comuniquem e se relacionem com um numero impensável de pessoas. É possível, atualmente, tanto para o bem quanto para o mal, acessar numa única hora mais pessoas do que poderíamos acessar a vida inteira, caso não houvesse essas redes.

 

Observo no consultório, entre outras coisas, um numero enorme de relações improváveis que só foram possíveis de serem formadas através dessas redes; a aceitação e, muitas vezes, a realização de desejos e fantasias das mais diferentes naturezas, que o sujeito acreditava serem só dele; o reencontro de pessoas queridas que ficaram perdidas no tempo e no espaço real; a formação de inúmeros grupos de afinidade, interesses e objetivos comuns e, mais importante, a possibilidade de vivencias e experiências subjetivas reprimidas ou complicadas no mundo real, assim como a expressão de algumas das múltiplas personas que compõem nosso psiquismo politeísta. Posso ser o sedutor que não consigo ser cara a cara, o marido ou amante ideal por quem o outro anseia, o jovem promissor, o senhor estável, o puto ou o santo. Não preciso ter vergonha dos meus desejos e fantasias nem ser totalmente controlado pelo olhar e julgamento do outro. Posso inventar uma vida e brincar com ela, de forma anônima, protegida e segura.

 

 Mas como nada disso vem de graça, prometo no próximo texto falar sobre a sombra, os perigos, os riscos e os desafios dessa nova realidade.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

   

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  

 

 

 

 

 

 

 

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