Desde que iniciei meu trabalho me especializando
em aconselhamento, e como um profissional que atua em terapia afirmativa para
gays, lésbicas e bissexuais, aonde quer que eu vá, em conversas
casuais ou palestras dirigidas, ouço sempre as mesmas perguntas: “Mas
por que o foco?”, “Atender apenas homossexuais não é
uma maneira de reforçar a discriminação e fortalecer o
gueto?”, “Mas o que há de tão diferente assim? Afinal
a orientação sexual não é apenas uma entre as várias
características do indivíduo?”.
Ainda que para mim as respostas sejam óbvias, compreendo perfeitamente
as dúvidas e até mesmo a certa descrença que meu trabalho
gera, inclusive na própria comunidade homossexual.
Na realidade, a necessidade do foco e a visão de como desenvolver este
trabalho também só ficaram mais claras para mim recentemente,
como conseqüência de uma experiência pessoal.
Embora, ao longo dos últimos vinte anos, eu tenha me submetido a diferentes
processos terapêuticos, estudado várias abordagens em terapia e
participado de inúmeras vivências grupais, só fui perceber
de forma inequívoca o poder transformador de um grupo formado apenas
por gays ao participar de um wokshop no Esalen Institute, na Califórnia,
em 1999.
Ali, juntamente com outros dezenove indivíduos, vindos de vários
estados americanos e com histórias pessoais diferentes e diversas bagagens
sociais e culturais, tive a oportunidade de, pela primeira vez, vivenciar de
forma profunda e verdadeira um elo emocional e afetivo com pessoas até
então desconhecidas. Foi como se, apesar da enorme diversidade entre
nós, tivéssemos todos a mesma história.
Nós, homossexuais, crescemos nos sentindo mais sós do que a maioria
dos heterossexuais. Crescemos sem um grupo de referência e, criados quase
sempre por pais heterossexuais, não temos uma fonte de aceitação,
compreensão e suporte emocional à qual recorrer. Desde cedo aprendemos
que devemos esconder nossos sentimentos verdadeiros e desenvolver uma identidade
pública diferente da nossa natureza interior.
Não temos modelos sociais para
nos inspirar e morremos de medo das conseqüências imprevisíveis
que nosso segredo, caso seja descoberto, possa acarretar. Não é
à toa que pesquisas demonstram que o índice de suicídio
entre adolescentes é muito mais alto entre jovens gays do que entre jovens
heterossexuais.
A experiência de nos encontrarmos com outros indivíduos semelhantes
e juntos podermos expressar sentimentos e compartilhar histórias em um
ambiente seguro, acolhedor e confidencial tende a gerar uma forte conexão
interpessoal, que comumente resulta em um impacto muito positivo na nossa auto-estima.
Com base na experiência pessoal que tive na Califórnia, fui me
aprofundando na temática homossexual, ampliando minhas pesquisas e me
envolvendo de forma ainda mais direta com a questão. Do ponto de vista
do trabalho terapêutico, foi ficando cada vez mais claro que conhecer
e compreender profundamente a dinâmica da orientação homossexual
e as diferentes formas pelas quais essa dinâmica se manifesta ao longo
do desenvolvimento individual pode fazer uma enorme diferença no resultado
do processo de ajuda profissional. Saí dessa vivência mais do que
nunca convencido da necessidade de um foco.
A terapia afirmativa parte do pressuposto de que todas as áreas da vida
de um homossexual são impactadas por sua orientação homossexual.
Desenvolvida inicialmente nos Estados Unidos, essa abordagem afirma que a identidade
homossexual é uma expressão natural e positiva da sexualidade
humana, tanto quanto a heterossexualidade; e que a homofobia, e não a
homossexualidade, é que é a causa de grande parte dos conflitos
vivenciados pelos homossexuais.
O psicólogo que atua em Terapia
Afirmativa, independentemente de sua formação teórica e
linha de trabalho, trata a orientação homossexual de maneira focalizada
e positiva, buscando, antes de tudo, resgatar a auto-estima do indivíduo
e fornecer-lhe suporte emocional para o desenvolvimento de uma identidade homossexual.
De uma identidade homossexual que possa estar integrada às diversas áreas
da vida do indivíduo.
Isso não significa desmerecer ou desqualificar abordagens não
especializadas, mas reconhecer o valor adicional que a especialização
pode trazer. São muitos os relatos de pacientes em terapia que se sentem
incapazes de expressar de forma direta e objetiva suas angústias relacionadas
a conflitos sobre orientação sexual, tanto em razão das
dúvidas e da confusão sobre seus desejos e sentimentos como também
por vergonha ou temor de se sentirem rejeitados pelo terapeuta.
Também são freqüentes relatos sobre terapeutas que, embora
não discriminam a orientação homossexual, demonstram, às
vezes de forma clara, às vezes de forma sutil, a crença numa superioridade
sexual representada pela heterossexualidade.
Minha experiência clínica, no trabalho com grupos ou individual,
e como educador, tanto por meio da internet como participando de palestras e
debates, até o momento só tem confirmado e ampliado minha convicção
de que o foco na orientação homossexual é altamente benéfica
para o processo terapêutico do paciente homossexual.