A riqueza escondida

As relações entre homossexuais e seus pais são quase sempre marcadas por uma complexidade que se manifesta desde muito cedo numa teia de sentimentos ambivalentes, pressentimentos, intuições e, sobretudo preocupações.

Já na infância, são comuns as preocupações decorrentes da percepção de que há algo diferente com os meninos. Eles tendem a ser mais sensíveis e a exibir comportamentos considerados femininos. E como conseqüência dessa não conformidade com o masculino, muitos pais se afastam, física ou emocionalmente, do filho, aproximando-o ainda mais da mãe.

O período de inicio na escola traz também novas preocupações. Professores e, principalmente os coleguinhas, não costumam acolher com compreensão e carinho o menino sensível. Alvo de chacotas e de outras formas mais graves de abuso, ele torna-se freqüentemente arredio, introspectivo e solitário.

Na adolescência, as preocupações mais óbvias giram em torno de seu temperamento fechado e da ausência de namoradas. Período difícil para todos, mais ainda para o jovem que precisa se esconder num armário de medo, desejo e vergonha. Nessas circunstâncias, não há relação pai/mãe e filho que se sustente de forma saudável e os conflitos são mesmo inevitáveis.

Quando o segredo é por fim revelado (ou descoberto), outras novas e terríveis preocupações se instalam e passam a mediar o dialogo (ou a ausência dele). Seja por meio de silêncios reveladores ou de um substrato formado por acusações, culpas, frustrações, cobranças e ameaças.

As preocupações dos pais com seus filhos homossexuais são a apenas a face mais evidente de uma relação complexa e pouco compreendida. São defesas que querem proteger, mas que ferem e impedem que a verdadeira natureza dessa relação singular se manifeste na sua totalidade. Quando abrandadas, abrem as portas para uma riqueza de possibilidades sequer imaginadas.

Klecius Borges