A mão invisível

O grande problema com os planos, sejam eles o A ou o B, é que eles são elaborados a partir de premissas e cenários mutáveis. Ou seja, o que vale hoje, com toda certeza não valerá amanhã. Por mais que tentemos considerar todas as variáveis e prever todas as possibilidades de desdobramento, haverá sempre a presença do imponderável.

As primeiras escolhas profissionais são feitas numa fase da vida na qual somos ainda fortemente regidos pelo arquétipo do herói, tendo portanto, como tarefa psíquica mais importante a construção de uma base sólida sobre a qual irá assentar nossa personalidade adulta. Nessa etapa, somos ainda profundamente influenciados pelas expectativas familiares e pelas exigências sociais, e buscamos a conformidade com nossos grupos de referência.

Com o passar dos anos, e à medida que nos aproximamos da meia-idade, começam a surgir inquietações, dúvidas e questionamentos, tanto de caráter pessoal quanto profissional, cuja finalidade é permitir um realinhamento de nossas escolhas conscientes com nossa natureza mais profunda. Nessa hora, somos, de uma certa forma, obrigados a confrontar necessidades abandonadas e a enfrentar os medos que nos mantêm aprisionados a uma personalidade que já não nos é mais adequada.

Por ser muito ameaçador para o nosso eu consciente, esse processo acaba sendo muitas vezes desencadeado por acontecimentos alheios à nossa vontade, tais como crises de identidade, perdas graves ou mesmo doenças. Ao contrário da etapa anterior, cujo movimento psíquico se dá na direção da conformidade social, ele aponta agora na direção da individualidade, da singularidade.

Para que os planos de fato nos ajudem, é essencial que contemplem também a mão do invisível. Aquilo que ainda não sabemos sobre nós mesmos, mas que constitui, além do nosso querer consciente, parte essencial do nosso destino.

Klecius Borges