Na base de um ciúme doentio encontra-se invariavelmente alguma forma de amor possessivo. Um amor forjado na insegurança por um lado e na dependência infantil por outro.
O mito de Cibele e Átis descreve com clareza as conseqüências trágicas de uma paixão ciumenta levada ao exagero. Cibele, criadora de todos os reinos da natureza teve um filho, Átis de quem se tornou amante quando esse atingiu a puberdade. Firmaram um pacto de fidelidade absoluta e viviam em um estado paradisíaco de total perfeição amorosa. Um dia, ao saber que Átis havia lhe sido infiel com uma ninfa por quem ele se apaixonara, Cibele teve um enorme ataque de ciúmes, levando Átis a tal estado de transe que ele acabou por se castrar. Não podendo assim jamais quebrar novamente o juramento de fidelidade.
Esse mito, embora trate de uma relação mãe- filho encerra também elementos comuns a relações entre parceiros amorosos e nos alerta para os perigos psicológicos da possessividade descontrolada. Cibele não suporta que Átis tenha vida própria e sente-se profundamente ameaçada pela possibilidade de perda da posse do amado. Sua reação desmedida desencadeia a tragédia que levará a autocastração e posteriormente à própria morte de Átis.
No plano humano, a autocastração de Átis adquire formas mais sutis, representando no nível psicológico uma resposta desesperada aos sentimentos possessivos do parceiro que tudo faz para manipular e aprisionar o ser amado. Mas essa prisão só é de fato possível por causa da dependência infantil e do medo da solidão que dominam esse amado.
Nas palavras dos psicólogos americanos Liz Greene e Juliet Sharman-Burke “nem Cibele nem Átis suportam o desafio humano da existência afetiva independente. Por isso não podem se tornar amantes que respeitam e valorizam a alteridade do outro; condenam-se a um estado psicológico de fusão, que resulta numa repetição cíclica de traição, mágoa, confusão e autodestruição”. Exatamente como tantos casais do nosso tempo.
Klecius Borges