O mundo das grifes é o mundo da imagem, das aparências, da persona. Por trás da racionalidade da qualidade, da exclusividade e do bom gosto, esconde-se o desejo, mais ou menos consciente, de destacar-se, distinguir-se e, portanto, de separar-se dos demais. Representa paradoxalmente a busca da singularidade (sou único) por meio da conformidade a um grupo específico (o dos "bacanas").
Embora todos os grupos sociais sofram as conseqüências deletérias da tirania do Deus Consumo, senhor absoluto do mundo globalizado, os gays tendem a adorá-lo de uma forma especial. Freqüentemente, sem o peso dos encargos de se criar uma família e com estilos de vida mais hedonistas, costumam dedicar tempo e dinheiro na construção de uma persona que os eleve acima da média dos mortais. Sensíveis ao belo, antenados as tendências da moda e preocupados com o estilo, são alguns dos argumentos dos quais lançam mão para justificar tal devoção a si próprios.
Se, por um lado, não parece haver nada de errado em se desejar pertencer ao Olimpo fashion do nosso tempo, os custos de tal empreitada são, via de regra, assustadores. Na busca cega por um lugar ao sol dos "bacanas" muitas almas são perdidas, abandonadas a deriva, consumidas em vidas artificiais e carentes de um sentido mais profundo. Depressão crônica, dependências, fobias e compulsões são alguns dos sintomas por meio dos quais elas pedem socorro.
O diabo do nosso tempo veste Prada e nos seduz com suas promessas de uma vida eternamente jovem e glamourosa. Ele é onipresente nos templos da moda, nas clínicas de estética, nas academias e nas baladas intermináveis. A outra face do Deus Consumo, ele não brinca em serviço: cedo ou tarde aparece para cobrar sua dívida.
Klecius Borges