A (des)erotização do amor

Embora todos concordem que não há uma fórmula para o amor, há sempre alguém disposto a oferecer soluções pret-à-porter que com alguns ajustes podem servir a muitos. Na tentativa de explicar sucessos e fracassos amorosos, especialistas lançam mão de teorias e de orientações práticas que, se seguidas com o rigor necessário, aumentam as chances de se encontrar (e de se preservar) a felicidade amorosa.

Motivados pela crença (muitas vezes inconsciente) de que só poderemos atingir a totalidade por meio de um relacionamento amoroso, maduro, estável e de longa duração, dedicamos grande parte de nossas vidas à procura da fórmula ideal que irá nos garantir a realização pessoal. Se, na era da subjetividade, já nos livramos da ditadura do one size fits all (um só tamanho veste todos) amoroso, continuamos ainda aprisionados à idéia de que só o amor formatado em um relacionamento específico nos levará a completude.

Assim, se a pulsão sexual (“o impulso erótico”) fora do padrão ideal atrapalha e não pode ser domada a contento, a separamos do afeto (“o verdadeiro amor”). Esse, preservado por criativos arranjos compensatórios, torna-se então a base do relacionamento saudável e maduro, enquanto o sexo, mero coadjuvante, será vivido sem vínculos com terceiros, às claras ou (preferencialmente) às escuras. Não beijar, não encontrar mais de uma vez, não compartilhar nenhuma intimidade, além da sexual, são alguns dos truques para manter o casal unido afetivamente, quando separado sexualmente.

Separar amor e sexo, como sugerem alguns, encerra, porém grandes perigos. Ao se ignorar o verdadeiro sentido de Eros, como força motriz e impulso de vida, cindindo-o em dois elementos distintos, corre-se o risco de se idealizar o primeiro e de se banalizar o segundo. O resultado, relacionamentos (des)vitalizados, (des)animados, mantidos vivos artificialmente.

Klecius Borges

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